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terça-feira, 18 de outubro de 2011

De que lado estamos?

Walter Scott, escritor inglês, criou a famosa figura do guerrilheiro, justiceiro e habilidoso archeiro, a que em Portugal chamamos Robin dos Bosques mas que o escritor inglês baptizou como Robin Hood (que significa Robin do Capuz, devido ao hábito que tinha de esconder o rosto e a sua identidade colocando sobre a cabeça um carapuço – hood – com que ocultava a cara).
Como muitas outras crianças e jovens, eu admirava aquela figura que enfrentava o tirânico xerife de Notthingam que, ao serviço de um rei usurpador, espoliava os pobres para favorecer os mais poderosos. Robin dos Bosques encarregava-se de combater os tiranos e repunha a justiça, apoderando-se dos bens dos poderosos que distribuía pelos pobres.
A história localizava-se na Inglaterra e na Idade Média. Mas todos nós entendíamos que aquela história era universal pois dizia respeito a todos os povos e a todos os tempos, pois sempre há os que usurpam, embora nem sempre haja um Robin que restabeleça atempadamente a necessária justiça.
Veio-me à memória esta história devido a uma metáfora utilizada pelo ex-presidente da República do Brasil, Lula da Silva, que esteve recentemente de visita a Portugal. Disse ele como receita segura para o sucesso económico:
Se deres um milhão a um rico, ele vai pô-lo numa conta “offshore” e, em seguida, desata a especular. Se o distribuíres por cem mil pobres, eles vão consumir e pôr a economia a funcionar.
Talvez haja muito a dizer desta proposta porque os dez euros que fossem distribuídos a cada pobre, torná-los-iam fracos consumidores. Mas há qualquer coisa de profunda intenção nesta metáfora e que me põe a pensar que há entre nós governantes que, na história do Robin dos Bosques, optaram por ficar do lado do xerife de Notthingam.

sábado, 8 de outubro de 2011

A revolução necessária?

É urgente, é necessário e útil que comecemos a dizer uns aos outros determinadas verdades. Embora, bem vistas as coisas, elas não sejam surpresa para ninguém. Mas, convém dizê-las para que, tomando consciência delas, despertemos para a necessidade de termos uma noção cada vez mais nítida de quem são os verdadeiros responsáveis pela situação em que nos encontramos.
Todos nós pressentimos que por detrás desta tremenda crise económica está, desde há muito tempo, uma grave crise de princípios e uma total ausência de valores. Vivemos rodeados de indivíduos tão destituídos de escrúpulos quanto o que se têm beneficiado por recorrerem a todos os expedientes para obterem o mais rapidamente que podem os maiores benefícios.
Ao mais alto nível, o da alta política que se pratica nos organismos internacionais e nos altos cargos do Estado, até chegarmos ao mais baixo nível do poder local, encontramos gente que pratica acções de autêntico banditismo com a maior das impunidades, rindo-se de nós, os estúpidos honestos que marcamos passo enquanto eles sobem na vida em ritmo de marcha acelerada.
Dir-se-á: mas gente desta houve sempre, em todos os tempos e em todos os lugares. Sim, é verdade. Mas, agora tornaram-se tão descarados, tão atrevidos e tão dominantes que ameaçam sufocar-nos por completo.
Repare-se como, ao nível mais alto, os Estados tem de pagar juros incríveis para acudir às mais urgentes necessidades das suas populações, conduzindo os países a níveis de endividamento que os levam a perder toda a liberdade de decisão, destituindo-os completamente da sua autonomia. E como, ao nível local, vemos indivíduos enriquecerem rapidamente, à custa de cumplicidades e compadrios que minam completamente o exercício da administração do bem público.
Por isso é que alguns políticos honestos começaram a clamar pela necessidade de uma nova revolução. Mas não por uma revolução que consista na luta armada. Antes por uma revolução das mentalidades que nos torne mais conscientes dos nossos direitos e mais responsáveis perante os nossos deveres.
Esta não é uma revolução de ideologias ou de partidos, mas a revolução  que cada um tem de fazer dentro de si mesmo para ganhar uma nova consciência e uma nova atitude perante esta vida sem horizonte e sem futuro para onde nos andam a arrastar.

Tudo tem o seu tempo e a sua razão de ser. Passou a época do derrube tradicional dos regimes. Hoje é tudo mais subterrâneo. O que não deixa de ser uma contradição curiosa: ao mesmo tempo em que a circulação corre a grande velocidade, há correntes submarinas de que não nos damos conta, nas quais tudo se decide. A transformação, qualquer que seja, é sempre lenta.
Jornal de Notícias, Porto, 27 de Março de 2004
In José Saramago nas Suas Palavras

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Antes que seja tarde...

Jobs for the boys tornou-se uma maledicência que reflecte a descrença que está a atingir os partidos políticos. Naturalmente que os mais atingidos são os que pertencem à área da governação.
Mas, esta expressão, a que foi dado um sentido tão pejorativo, aponta para uma questão a que não tem sido prestada a devida atenção. Os maiores partidos têm as suas organizações de juventude, coisa que, em princípio, terá de ser vista como natural e positiva. As juventudes partidárias devem ter a função incubadora de formar as sucessivas gerações de políticos que devem servir a governação do país. Ora, o que está a acontecer é que, em todas elas, a função formadora, que devia ser essencial, tem desaparecido para dar lugar a uma função meramente arregimentadora. Em vez de promoverem a formação dos seus jovens militantes, utilizam-nos como meros propagandistas, treinam-nos nos truques e manigâncias que se destinam a integrá-los nas manobras de assalto ao poder.Ou seja, treinam agitadores mas não formam políticos.
Na ânsia de alcançarem esse objectivo o mais depressa  possível, não lhes dão tempo para amadurecerem competências e para estruturarem o carácter, condições essenciais para os que se destinam a assumir responsabilidades políticas. 
Por isso, temos políticos cada vez mais jovens em cargos de grande importância. Será também por essa razão que os políticos têm cada vez menor qualidade? Não por serem jovens. Mas por serem jovens com pouca ou nenhuma formação. 
Quem sabe? Se os partidos cuidassem mais da formação das suas juventudes, os boys que iriam ocupar os jobs estariam tão bem preparados que a frase jobs for the boys, deixaria de ter uma conotação pejorativa  e passaria a ser entendida como um elogio...