Fernando Pessoa escreveu:
Melhor que isto é Jesus Cristo
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Parecendo nada de importância dizer, o poeta disse tudo o que de importante devia ter sido dito.
Reparem neles, feitos baratas tontas, azuados, sem saberem que fazer com as suas belas teorias, com as suas análises sistémicas da situação económica, com os seus truques de alto saber sobre finanças. Agora que já não podem insultar, acusar, difamar e deitar culpas sobre os responsabilizáveis, porque, agora, levados pela sua enorme ambição, se tornaram eles os maiores responsáveis, aí estão, armados em virgens abusadas, enganadas e violadas, clamando aos sete ventos contra os que, usando da sua boa fé, causaram a sua desgraça.
Então esta gente tão sábia, tão astuta, tão cheia de artimanhas e de habilidades, não conseguiu compreender esta verdade tão simples? Bastava um pouco de humildade e de bom-senso para compreenderem que em certos jogos não há lugar para solidariedades, para respeito pelos compromissos e muito menos para gratidões ou reconhecimentos de serviços prestados. Há apenas lugar para cumplicidades e cada um dos cúmplices deve saber que cada um procura apenas o máximo proveito sem olhar a recompensas.
Passos Coelho queixa-se de "murro no estômago"... Sua Excelência, o Presidente diz-se revoltado e decepcionado... Mas que é que esperavam? Não compreenderam a função que voluntariamente se propuseram desempenhar? Não entenderam que tendo sido convidados a abrir as portas não estavam incluídos no direito de participar na pilhagem?
Não tem de quem, nem de quê se queixar quem aceitou cumplicidades das quais nada de bom havia a esperar.
O pior é que agora, nem podemos dizer-lhes com desprezo: "Pois agora aguentem-se!" Porque, de facto, quem tem que aguentar somos todos nós.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Peço desculpa, mas não concordo…
O Dr. António Bagão Félix, licenciado em Finanças, da área de interesses do CDS/PP, que já pertenceu a vários governos de direita, declarou numa entrevista que Não há tempo para medidas simpáticas.
Mas, onde é que o senhor vê razões para falar de menos simpatia nas medidas anunciadas por este governo?
Ou não entendi bem, ou este governo tudo está a fazer para agradar àqueles que mais o apoiaram, que mais contribuíram para que alcançasse a liderança política do Estado, para que melhor fosse consolidada a saúde financeira dos bancos, dos grandes empresários, dos grandes quadros empresariais, dos que dominam a comunicação social e dos grandes investidores e financeiros.
Tenha lá paciência Sr. Dr. Bagão Félix mas, este governo, tem feito tudo o que podia ser feito de mais simpático, para aqueles em nome dos quais está a dirigir os negócios do Estado.
Quanto aos outros? Ora… Cada macaco no seu galho! Eles que tenham paciência!... Já sabemos que nunca se pode governar a contento de todos.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Será que entendi bem?
Com o corte de cerca do correspondente a 50% dos subsídios de Natal, o novo Governo tenciona obter 800 milhões de euros, à custa dos trabalhadores e dos reformados.
Pareceu-me entender que esta medida serviria para compensar parte dos 1 600 milhões de que o Estado vai deixar de cobrar, como tinha anunciado na campanha eleitoral, com a redução de 4% da Taxa Social Única aos empresários. O que é o mesmo que dizer que 50% dos subsídios de Natal dos trabalhadores e reformados, vão parar às contas bancárias dos empresários. Pois é… Quando vir passar uma daquelas grandes “máquinas” em que se costumam deslocar, não poderei deixar de pensar que parte dos brinquedos que pensava comprar para os meus filhos vão rodando naquele espampanante topo de gama que passa radiante e veloz sem se incomodar com as minhas tristes necessidades.
Bem vistas as coisas, para que precisam os meus filhos de mais brinquedos?
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Explicação de um caso
Há umas décadas atrás, os bancos começaram a emprestar dinheiro aos construtores civis. Muitos mestres-de-obras, alguns que nem passavam de meros aprendizes de pedreiros, tornavam-se rapidamente prósperos empresários alardeando a sua súbita riqueza na espantosas e vistosas casas que construíam, bem à vista de todos e nas grandes e luzidias máquinas que exibiam pelas ruas e estradas deste país. Eram estes os homens de sucesso que muitos tratavam pela alcunha, nada agradável, de “patos bravos". Os prédios e as novas urbanizações nasceram como cogumelos, um pouco por todo o lado.
Mas o negócio só podia funcionar se houvesse quem comprasse as ditas habitações. Por isso, os bancos logo facilitaram o funcionamento do sistema oferecendo crédito barato aos que, para concretizarem o sonho de adquirirem casa própria, se endividavam comprometendo nisso parte dos seus rendimentos por uma grande parte das suas vidas.
Os bancos proliferaram e progrediram. Mas foi crescendo a chamada “bolha do imobiliário” que, qual bola de sabão, acabou por rebentar.
A certa altura, a torneira dos financiamentos a baixo custo começou a secar. Os juros cresceram. Os que tinham obtido créditos muito favoráveis, viam os seus rendimentos minguarem na razão directa do acréscimo dos seus compromissos. Os construtores ficavam com as casas por acabar ou por vender. A falência das empresas gerou os despedimentos em massa. A bola de neve começou a descer a encosta e não mais parou de aumentar.
Incapazes de cumprir as suas obrigações, as pessoas começaram a entregar as casas que não podiam pagar. Os bancos tornaram-se os maiores proprietários do parque imobiliário do país. Mas, como a sua função é a de “vender” dinheiro e não a de alugar casas, trataram de leiloar as que lhes eram entregues, a preços muito compensadores. Os que podiam comprá-las puderam fazer grandes negócios e trataram de arrendar as casas que tinham comprado a preços de saldo.
O ciclo fechava-se. Mas foram, como sempre, os mesmos a perder e os mesmos a lucrar.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Palavras sensatas
A sociedade consumista em que temos andado a viver, tornou-nos tão acomodados que até perdemos o saudável hábito de pensar. Ora, os tempos das fáceis regalias propiciadas pelo crédito fácil em que nos fomos enredando, não pode continuar. A menos que aceitemos como fatal o caminho para a “banca rota” a que nos conduziu esta “economia de casino” das políticas seguidas um pouco por toda a Europa.
Nesta conjuntura, devemos tornar-nos capazes de entender as ideias que nos tornem aptos a optar pelas melhores soluções a fim de reequilibramos as nossas vidas, principalmente aquilo que nelas deve ser a parte essencial: a vida das nossas famílias.
Nesse sentido, transcrevo as palavras simples mas muito sábias do texto que passo a transcrever:
Os filhos mais novos que agora vão crescer em ambiente “de crise” não vão poder usufruir de tantas “mordomias” quanto os mais velhos. O que provavelmente não lhes trará grande sofrimento desde que os pais não se sintam culpados por não lhes poderem dar o mesmo que deram aos irmãos mais velhos. As crianças só precisam de perceber que o amor dos pais e da família não entrou em crise e que sejam quais forem as circunstâncias é, esse sim, “igual para todos”
(Sofia Barrocas, in, “Notícias Magazine” 19 de Junho de 2011)
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Pensar a Política
Confesso a minha tendência para votar em partidos de esquerda. Desde que esses partidos me garantam a defesa daquilo que, para mim, deve ser a essência do Estado: a Democracia.
Mas, sou capaz de entender que não fará muito sentido, apoiar partidos que, apresentando-se como de esquerda, usam e abusam de políticas de carácter nitidamente neoliberal. Sendo assim, entendo que mais vale que essas políticas sejam executadas por partidos que se assumem doutrinariamente como tal. É mais coerente e mais honesto que assim aconteça.
Por outro lado, sou também capaz de entender que o “Estado Social”, para mim o modelo ideal de organização política, não pode significar que cada um entenda que pode tudo exigir sem se sentir obrigado a contribuir para a manutenção do mesmo Estado.
Por isso, para que uma política verdadeiramente social seja sustentável, o Estado deve ser forte, exigente, vigilante do cumprimento da lei, da ordem e de que cada um cumpra escrupulosamente as suas obrigações fiscais.
O “Estado Social” só subsiste se apoiado numa base económica estável. Por isso, deve ser rigoroso para que haja equidade e justiça na distribuição das benesses e dos sacrifícios. Essa é a condição básica da justiça social. O mau entendimento disto leva, por um lado, ao “parasitarismo” de uns, à prática da corrupção por outros, a qual favorece a especulação que propicia o escandaloso enriquecimento de uma minoria.
Penso que se todos analisarmos as práticas políticas à luz destes critérios, se tornará mais eficaz a vigilância que, enquanto cidadãos, devemos exercer num Estado Democrático.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Um direito ou um grande descaramento?
O Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) convocou uma greve de dez dias em protesto contra a diminuição de um tripulante de cabina. (Note-se que a TAP é das companhias aéreas que mais comissários e assistentes de bordo utiliza em cada voo). Invocavam os sindicalistas a segurança dos passageiros que, no seu entender, seria posta em causa.
A situação da companhia é tão pouco segura que, outros trabalhadores e mesmo a opinião pública, reagiram prontamente contra esta decisão que colocava em risco o futuro da companhia e, portanto, os seus postos de trabalho.
O SNPVAC recuou mas não sem exigir um substancial aumento de regalias que nada têm a ver com as questões que envolvem a segurança dos passageiros da TAP.
A isto chegámos: sindicatos que exigem coisas que põe em risco outros sectores laborais (a isto chamaremos solidariedade?); invocam como razões a segurança dos clientes, mas contentaram-se com vantagens pessoais (a isto chamaremos coerência?); sindicatos, servindo-se do direito à greve, reivindicam uma coisa para no fim obterem outra (a isto chamaremos chantagem?)
O abuso de direitos, quase sempre obtidos com muito esforço e muita luta, é a maneira mais rápida para enfraquecer as razões que legitimam esses direitos.
sábado, 18 de junho de 2011
Cerca de 300 pessoas assistiram à deposição das cinzas de Saramago
"O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias."
(José Saramago)
Exactamente um ano depois da sua morte, a 18 de Junho de 2010, e à mesma hora a que morreu, 11:30, iniciou-se a cerimónia de homenagem ao Nobel da Literatura português, no Campo das Cebolas, em Lisboa, ao som dos tambores da orquestra de percussão Tocá Rufar.
“Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (…), serás os milhares de páginas que escreveste (…) De resto, nós queremos que este momento seja alegre, que sejas seiva desta cidade”, afirmou.
“Quanto a nós, enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar”, rematou.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
A falta de memória...
Na noite da eleição para a Assembleia da República que determinou quem será o próximo primeiro-ministro de Portugal, após o primeiro-ministro cessante ter, com grande dignidade, reconhecido a sua derrota e cumprimentado o seu adversário pela vitória obtida, uma criatura que, ao que parece, será uma jornalista credenciada com carta profissional, fez ouvir a sua voz para perguntar como é que ele encarava a possibilidade de vir a ser confrontado com novos processos judiciais.
Francamente!... Depois de seis anos de uma campanha persecutória de insinuações em que nada conseguiram provar, ainda uma última estocada à má fila para encerrar o processo mais miserável a que se assistiu nos últimos tempos em Portugal.
Será isto jornalismo ou apenas uma caluniosa perseguição?
No último 10 de Junho, o primeiro-ministro ainda em exercício, no desempenho das suas funções, participou numa cerimónia em Castelo Branco. Foi recebido com insultos e apupos. Porquê? Para quê? Em nome de quê? Com que direito? Não tinha sido já julgado pelos pelos resultados eleitorais?
Nessa mesma cerimónia o presidente da Comissão das Comemorações do Dia de Portugal, permitiu-se fazer um discurso crítico em que, fingindo atacar toda a classe política, visava sobretudo atacar a acção dos que tinham ocupado funções governativas nos últimos tempos. No entanto, o homem que falava era o mesmo político que, alguns anos antes, fora o Ministro da Agricultura. Que lógica há neste comportamento? Com que autoridade pode falar assim quem teve a possibilidade de remediar as coisas e mais não fez do que contribuir para a situação em que o país hoje se encontra?
Lembram-se dos subsídios chorudos concedidos aos proprietários agrícolas que foram convertidos em jipes, piscinas e outros mimos? E lembram-se de quem era o primeiro-ministro da altura? Era o mesmo que, no se discurso, naquele mesmo palco, agora como Presidente da República de Portugal, lamentava a situação a que o país chegara.
Francamente! Se os próprios políticos se comportam com tão pouca elevação, como nos podemos admirar das parvoíces de uma qualquer criatura armada em jornalista, ou dos berros dos energúmenos que insultaram a coberto do anonimato?
sábado, 11 de junho de 2011
Falar claro ?...Ou atirar a pedra e esconder a mão?...
O Presidente da Comissão das Comemorações do Dia de Portugal teve um discurso muito crítico para os responsáveis políticos.
António Barreto defendeu hoje "o apuramento de responsabilidades" pela crise, resultado da "imprevidência das autoridades", referiu.
O responsável discursava na sessão solene do Dia de Portugal, hoje, em Castelo Branco, em que defendeu ainda uma revisão constitucional.
Apesar de não a considerar "solução para a maior parte das dificuldades" defende a revisão "para pôr termo à permanente ameaça de governo minoritários e de parlamentos instáveis".
Segundo referiu, "uma constituição renovada implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política".
O discurso de cinco páginas teve como base a crise financeira, mas aborda a crise política e social, apelando a que os portugueses sejam tratados "não apenas como contribuintes inesgotáveis ou eleitores resignados", mas como "cidadãos livres".
Barreto apontou o dedo a "alguns políticos" por "não terem dado o exemplo do sacrifício que se impõem aos cidadãos".
Disse mesmo que "a indisponibilidade [dos políticos] para falarem uns com os outros (...) contrasta com a facilidade e o oportunismo com que pedem aos cidadãos esforços excepcionais".
Agora, e numa alusão às Eleições Legislativas, sublinhou que "o povo falou, fez a sua parte, aos políticos cabe agora fazer a sua".
Para aquele responsável, Portugal está "num desses raros momentos históricos de aflição e de ansiedade colectiva em que é preciso estabelecer uma relação especial entre cidadãos e governantes".
In, ECONÓMICO, 10 de Junho de 2011quarta-feira, 8 de junho de 2011
Não vai ser fácil, não...
O politólogo André Freire diz que além de obrigatoriamente ter que ser "tecnicamente forte, o próximo ministro das Finanças tem acima que tudo de ter uma vertente política muito forte". "É crucial", sublinha. O politólogo lembra que haverá a necessidade de negociar com outros parceiros de governo, já que o mais provável é que o Executivo seja de coligação, e também com a oposição.
António Costa Pinto concorda e defende que além da "experiência na máquina do Estado" e "alta competência técnica" este ministro das Finanças terá que ter uma vertente política forte. "A associação entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças terá que ser muito estreita". Tal como André Freire, António Costa Pinto sublinha a importância do próximo ministro das Finanças ter que ter uma capacidade de resposta e negocial com a Presidência da República, Governo e partidos da oposição. Em jeito de conclusão o politólogo diz que a partir de agora "80% da vida política do país está no Ministério das Finanças".
In ECONÓMICO, 6/6/2011
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Dá que pensar....
Quatro anos depois…
Por Serge Halimi In Le Monde Diplomatique. Quinta-feira 5 de Maio de 2011
O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de o admitir: «Quase quatro anos depois do início da crise financeira, a confiança na estabilidade do sistema bancário global continua a precisar de ser restaurada (…).
No fim da década de 1980, a seguir à falência fraudulenta das caixas de poupança americanas, foram levados aos tribunais 800 banqueiros. Agora, o poder dos bancos, ainda maior depois das reestruturações que concentraram o seu poder, parece garantir-lhes a impunidade face a Estados enfraquecidos pelo peso da dívida pública (…).
Três anos de reuniões do G20 que visavam criar uma «nova sinfonia planetária» conservaram portanto intacto um sistema que mistura desregulação bancária, prémios faraónicos para os geniozinhos da «inovação financeira» e pagamento de todos os danos que eles causam aos contribuintes e aos Estados. Assim, a crise que já devia ter sido vista como «crise a mais» foi uma crise para nada. Andrew Cheng, principal consultor da Comissão de Regulação Bancária chinesa, sugere que esta passividade resulta de um «problema de captura» dos Estados pelo seu sistema financeiro .O mesmo é dizer que os responsáveis políticos se comportam demasiadas vezes como marionetas que se preocupam, sobretudo, em não incomodar o festim dos banqueiros.sábado, 4 de junho de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Dura lex sed lex
Esta frase latina, em título, tentava significar que a lei era lei, mesmo que tivesse que ser dura para aqueles que prevaricavam.
Aí está uma coisa que dificilmente se poderá aplicar à lei, tal como ela costuma ser cumprida e imposta pelas nossas autoridades. Vejamos o seguinte caso:
Campo Maior, um dia da semana, em hora de plena actividade. Na Rua da Carreira, onde sinais bem evidentes determinam que só se pode estacionar no lado esquerdo, estavam estacionados, no lado direito, em carreirinha, entre a farmácia e as antigas instalações da Caixa Geral de Depósitos, cinco viaturas ligeiras de passageiros e um furgão de carga. Eis que passa uma viatura da GNR com dois agentes, pára entre os carros, a meio da rua, um dos agentes sai, abre a porta da bagageira, dirige-se com uma caixa a um comércio, onde demora alguns minutos. Formou-se uma fila de viaturas atrás, em espera. O agente saíu calmamente, fazendo um sinal de desculpa amável para os condutores dos carros impedidos de avançar. Calmamente ainda, entrou no carro e seguiu viagem.
Como se vê, pela atitude amável, complacente e atenciosa dos senhores agentes, a lei entre nós não é dura. É mesmo tão pouco exigente que se põe mesmo a dúvida de se existe, de facto, lei.
domingo, 22 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
A falta de memória deste tempo que é o nosso
Na sua coluna O tempo e a memória, no DN de 17 de Maio, Mário Soares num texto intitulado Portugal vai mal mas a União Europeia, pior, escreve que uma das causas do pessimismo dos portugueses perante a situação actual, se deve ao "autismo de alguns políticos e economistas".
Acho que tem inteiramente razão e leva-me a acrescentar que esse autismo é tão grande que os leva a ignorarem e apagarem da sua memória factos bem recentes que se tornam indispensáveis para compreender a situação com que nos confrontamos. Basta ver o chocante realismo com que, no documentário Inside Job (A Verdade da Crise), são explicadas e desmascaradas as manobras da incrível ganância e total falta de escrúpulos com que os tubarões dominaram o jogo financeiro a nível mundial, para percebermos como as encenações politiqueiras que se estão a desenvolver no cenário eleitoral em que esta inúteis e inexplicáveis eleições, lançaram o nosso país.
Tudo vale para se atacarem, para ganhar vantagem, para assegurar esta insana vontade de poder que os leva a uma corrida louca que parece querer arrastar-nos a todos par o abismo.
De repente uma amnésia total varreu tudo do espírito desta gente. Até parece que não houve no, tão próximo ainda, ano de 2008, uma crise global em resultado do desabar do sistema financeiro com um custo de mais de 20 triliões de dólares de que resultou o desemprego e que implicou a perda das suas casas e de outro bens essenciais, de muitos milhões de pessoas.
Parece que nada disto foi real. O que interessa é apontar a dedo a responsabilidade e a culpa dos adversários para com isso conseguir a sua desmoralização e ganhar assim a votação que lhes assegure a pose do almejado poder.
Como se todos eles não tivessem sido "cegos, surdos e mudos" para os avisos de alguns, muito poucos, aliás, que alertavam para o perigo de embarcar na barca de sonho da vida fácil, na obtenção do máximo de vantagens com o mínimo de esforço...
E a verdade é esta: sem consciência dos erros e sem assunção de culpa, não há que esperar regeneração.
Pouco há a esperar de quem entende a política apenas como ambição e sem qualquer preocupação para analisar as causas a fim de poder engendrar as melhores maneiras de enfrentar os problemas.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Penso que os políticos são sobretudo ignorantes. Eles próprios não receberam formação cultural e resistem a ela como a qualquer coisa que não dominam.
Hoje só interessa o imediato e, como tal, as pessoas ignoram tudo o que tenha passado há mais de cinco anos.
Para haver responsabilidade tem de haver um equilíbrio entre o que vem de trás e aquilo que podemos fazer.
Estas frases foram proferidas por Vitorino Magalhães Godinho que morreu no passado dia 26 de Abril. Quase ninguém deu pela sua morte. Como haviam alguém de dar por isso?
Afinal não era um colunável, um desses famosos que enchem notícias de jornais, revistas e televisões.
Quem era, ao fim e ao cabo, Vitorino Magalhães Godinho? - Era apenas um historiador português que tinha ensinado em algumas das mais notáveis universidades por esse vasto mundo, que ajudara a fundar a Universidade Nova de Lisboa, onde leccionara a minha e muitas das novas gerações. Escreveu obras como Os Descobrimentos e a Economia Mundial, A Expansão Quatrocentista Portuguesa e A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, entre muitas outras. Nada de muito importante, já se vê. Apenas alguns livros que o tornam seguramente um dos maiores historiadores portugueses do século XX e, muito provavelmente, um dos maiores histotiadores portugueses de todos os tempos.
A maneira como foi tão ignorada a sua morte, dá pleno sentido à frases que acima se transcrevem.
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