quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CAMIÃO DESGOVERNADO


Já aqui escrevi que o Governo tinha toda a vantagem em manter o melhor entendimento possível com o PS. Por um lado, isso permitiria diminuir o nível de conflitualidade social; por outro, reforçaria o peso do País junto de quem nos está a emprestar dinheiro. Quanto mais alargado for o arco da concertação em torno das políticas, maior é a confiança quanto à sua aplicação. Mas se um bom relacionamento institucional e político com os socialistas teria consequências extremamente positivas para o País, além de facilitar a vida ao Executivo, por maioria de razão deveria interessar ao PSD. E percebe-se porquê. Primeiro, porque dificultava a vida de todos quantos no PS manobram junto da direcção de Seguro para que este se distancie cada vez mais ou mesmo rompa com o memorando assinado com a troika; depois, porque ajudava a suavizar os efeitos colaterais que a austeridade está a provocar junto do seu eleitorado mais social-democrata, efeitos esses bem visíveis na descida dos laranjas nas sondagens.
Tudo isto é tão óbvio que não se consegue entender esta insistência da direcção do PSD em agir com a inteligência de um camião desgovernado. Deslumbrados pelo poder e muito mal preparados para o exercer, pese embora o facto de muitos nunca terem feito outra coisa na vida, o certo é que esta prática do agir sem dar cavaco a ninguém começa a ter consequências devastadoras na coligação. Os episódios de mal-estar multiplicam-se e não há dúvidas de que o dr. Portas, como quem não quer a coisa, vai dando todos os dias surpreendentes lições de como fazer política ao dr. Passos. A regra é nunca desperdiçar um momento em que se pode distanciar do seu parceiro e isso tanto pode acontecer face a medidas muito concretas (como é o caso do pacote autárquico) como perante meros cenários (a extensão aos privados do corte de um dos subsídios para colmatar os efeitos da decisão do Tribunal Constitucional), ou sob o pretexto de uma questão de forma (ser um consultor do Governo, António Borges, a revelar o que está em cima da mesa para a RTP). Aí, o líder centrista manda avançar os seus peões que ora mostram surpresa ora se debatem entre a irritação ou a crítica severa de quem, definitivamente, deseja fazer esquecer o seu protagonismo no filme. À medida que as dificuldades aumentam, o CDS quer parecer mais fora do que dentro da coligação num enredo déjà vu de outros carnavais. Um dia virá reivindicar (apenas) o melhor legado desta parceria, o que também já não é novo. Enquanto isso, Passos e sus muchachos, cada vez mais isolados, seguem no camião desgovernado a caminho do precipício.
 Quando a austeridade asfixia a economia, é fundamental saber fazer política, estúpidos!

In, VISÃO, 30 de Agosto de 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

UMA QUESTÃO DE FÉ

O alargamento por mais um ano do prazo para redução do défice orçamental parece justificar todas as críticas já efetuadas à comunicação do primeiro- -ministro, tanto na forma como no conteúdo. A escritora dinamarquesa Karen Blixen dizia que os seres humanos são capazes de suportar todos os sofrimentos desde que eles façam sentido. Ora, a brusquidão desajeitada da comunicação de 7 de setembro, do chefe do Governo, foi incapaz de dar as razões e os argumentos, que são a base do sentido. Ora, depois de escutar o ministro das Finanças, ontem, percebi que as regras do jogo são outras. Numa resposta ao jornalista Nicolau Santos, o homem que tem a primeira e a última palavra sobre a condução da austeridade no nosso país, depois de aceitar que é legítimo colocar-se a questão de saber se a atual política pode correr o risco de criar um ciclo "diabólico", em que a recessão chama mais austeridade, e esta agrava a recessão, dispensou-se de contra-argumentar, afirmando que a sua crença é outra, a de que voltaremos, já em 2013, a ver sinais de inversão de tendência. É verdade que toda a política implica navegar na incerteza, mas, há uma diferença entre conhecimento incompleto e uma declaração de fé, que se ergue contra a força dos factos empíricos sem explicar como é que estes podem ser invertidos. Na verdade, a boa política é aquela que faz economia da violência, também porque não poupa na boa semântica. Substituir a política pela fé conduz, geralmente, ao contrário.

 Por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
In, Diário de Notícias, 12 de Setembro de 2012

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A AVALIAÇÃO PELA TROIKA OU DA POLÍTICA IMPOSTA PELA TROIKA?

No expresso de 1 de Setembro de 2012, Manuela Ferreira Leite, - reparem que é ela e nenhum critico do PS, do PCP, ou do BE - escreveu:

Uma certeza existe, a troika desta vez não vem apenas certificar-se se da nossa capacidade de lhes obedecer.
A troika, desta vez, terá de se avaliar a si própria. 
E é desta dupla avaliação  depende em muito a a evolução da nossa situação económica e social. 
Ou a troika reconhece que o programa que nos aplicou tem de ser ajustado à realidade, uma vez que os resultados divergem dos objectivos traçados, ou insiste no cumprimento das metas preestabelecidas e impõe mais austeridade.
No primeiro caso, deixa-nos avançar ao ritmo adequado à realidade, como aconselha o bom senso.
No segundo caso, conduz-nos por um caminho que pode desembocar numa "outra Grécia".
Por isso, esta avaliação não é mais uma entre as outras. 
É a avaliação que determina o nosso futuro.   

domingo, 9 de setembro de 2012

"MÃE CORAGEM"

Todas as opiniões serão legitimas. Mas algumas têm mais peso do que as outras...



Ouvi ontem as palavras - parole, parole, parole - do Primeiro-Ministro e fiquei irritada. De facto ser economista é uma menos valia nestas coisas da política.
Ou estes senhores que nos governam entendem que a classe média trabalhadora, os reformados e pensionistas dessa mesma classe média não aguentam mais sacrifícios, ou o caldo vai entornar.
Fazer trocadilhos com as palavras escolhidas para as decisões tomadas não resolve o problema. As medidas anunciadas envolvem um agravamento tributário sério e são injustas.
Governar é atenuar desigualdades, abrir oportunidades, evitar injustiças. Isso não está a acontecer e é bom que esses senhores que foram legalmente eleitos tenham consciência de que precisam de encontrar outro caminho. Este não serve e é necessário procurar alternativas. Para isso é que eles lá estão. E para isso também é que deve haver uma sólida oposição, na qual possamos confiar.

HSC
l, in “Fio de Prumo”

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

OS NÚMEROS E A REALIDADE


Quando vou de férias, procuro desligar-me de tudo. Excepto da leitura do diário. Hábito que mantenho há alguns anos ...
Conservei algumas notícias e crónicas  pelo grande significado que achei que tinham.
Fazem o favor de ler com atenção esta e verificarem como um governo que tanto se afirma defensor de Portugal, tem ideologicamente a preocupação de manter privilégios sem tomar em consideração os reais interesses dos portugueses. 
Não eram eles que iam emagrecer as gorduras do Estado?
Não eram eles que iam equilibrar o défice cortando nas despesas?
Ou será que entendemos mal  e se tratava apenas de reduzir a capacidade de cada um de nós fazer despesas?

A decisão do Governo PSD/CDS de extinção de chefias militares reduz as Forças Armadas portuguesas a 18 308 operacionais. Somados os dois processos de redução, o que vinha de 2009, e o agora anunciado [menos 230 militares] o corte total é já de 1583 efectivos.
O emagrecimento pretendido pelo ministro da Defesa, Aguiar-Branco, acrescenta na Marinha um corte de 1,2% (menos 94), no Exército diminui 1% (menos 65) e na Força Aérea 1,8% (menos 71). Ou seja, as Forças Armadas vão passar a ter menos 11 generais, 83 oficiais e 118 sargentos. Estes são os números oficiais, a realidade é outra.
Portugal é o segundo país da NATO com maior peso nos custos com pessoal: 77%. O esforço financeiro para equipamento é metade dos restantes membros da organização. A dimensão do efetivo militar [e aqui é necessário incluir também o pessoal civil] nas Forças Armadas é excessiva face à população. Ele está sobre dimensionado. Temos mais de 4 mil efetivos por cada milhão de habitantes. Dois exemplos que permitem perceber o que está em causa: em Espanha a relação é de 3 mil para um milhão enquanto no Reino Unido é de 2800 por cada milhão de habitantes. Outro dado: em termos médios, praticamente metade dos efetivos militares fazem parte das estruturas de comando. Percentualmente, por exemplo, temos mais sargentos e oficiais do que o Reino Unido, mas menos praças.
A análise detalhada do estado da Defesa Nacional realizada pela Fundação Oliveira Martins mostra-nos umas Forças Armadas desajustadas, presas a uma rigidez na despesa com pessoal, que tem vindo a reduzir de forma preocupante a margem para investimentos em equipamento adequado, para além de criar valores salariais médios/baixos. Nalguns casos demasiado baixos.
Esta desordem obriga a uma rápida, mas acertada, correção, ou um destes dias - pode parecer anedota, mas não é - não haverá quem possa varrer a parada. 
Diário de Notícias ,24 Agosto de 2012

Ou seja, temos muitos quadros de chefia militar mas o exército não está devidamente equipado e é reduzido o número de soldados...
Então, quem é que está a viver acima das suas posses?


domingo, 2 de setembro de 2012

JARDIM DE PAPEL?

Saí de Campo Maior já com o evento  JARDIM DE PAPEL  a ser desmontado. Portanto, é já com alguma distância no tempo que agora dou conta das minhas observações e reflexões sobre o acontecimento. 
Primeiramente quero sublinhar que, de todas as tentativas de criar um evento local de base e com objectivos verdadeiramente populares, esta foi. sem sombra de dúvida, a mais conseguida. 
Ao elaborar este texto, não podia ignorar o privilégio que tive de discutir isto com um amigo mais velho e mais sabedor destas questões e que, de forma clara e objectiva me chamou a atenção para vários aspectos que esta realização implica. Passo a referir alguns desses aspectos que retive da sua análise e interpretação:
1. Todas as tentativas anteriores tinham sido um desastre porque nem se enraizavam em qualquer tradição, nem estavam estruturadas para que pudessem ter sucesso;
2. Este evento, comemorando e homenageando a maior de todas as tradições da cultura campomaiorense -As Festas do Povo - estava à partida a garantir o sucesso;
3. A realização do evento no local em que foi realizado, convocou os campomaiorenses  para colaborarem e conviverem num espaço estrategicamente localizado, deixando de haver qualquer sugestão de privilegiar a uma zona em desfavorecimento das outras: A Avenida ou Jardim, constitui um espaço neutro, ponto de encontro entre a vila velha e a vila nova.
4. Nesta tentativa, conseguiu-se dar vida à defunta e triste Feira de Agosto que de feira já não tinha nada e que como mercadilho era uma desgraça;
5. Com a morte confirmada da antiga feira, Campo Maior precisa de uma festa anual  que traga até cá os que estão fora e, se possível, os próprios visitantes atraídos por este evento tão ligado à mais famosa das nossas realizações culturais. 

De uma conversa que foi bastante longa, refiro apenas o que consegui reter de memória, sabendo que estou as omitir outros aspectos igualmente importantes.
Mas foram o ponto de onde parti para reflectir sobre esta questão que não quis deixar de partilhar através deste texto.
Claro que é preciso que os responsáveis, para além de terem ficado justamente embevecidos com os resultados, tirem daqui as ilações que possam dar força a uma ideia que, ficou provado, tem razão de ser.
Mas as ideias e os projectos são como as plantas: têm de ser cuidados tratados, estruturados e programados para que possam crescer e desenvolver-se. Tudo o que este ano possa ter sido feito na base do improviso e de desenrascanso, deve dar lugar à preparação ponderada e atempadamente preparada para que possam ser atingidos novos escalões de qualidade. Uma das coisas a repensar seria o nome Jardim de papel?
Seria pena que uma tão boa ideia se perdesse por inépcia, por descuido ou por desleixo. Seria uma grande derrota para os campomaiorenses e para Campo Maior.