segunda-feira, 13 de maio de 2013

ACERCA DA LEI



Não existe coisa alguma que seja legítima só para alguns
E ilegítima, portanto, para os outros.
A Lei estende-se igualmente por toda a parte e para todos
Como o ar que governa em todos os lugares
E a infinita luz dos Céus.

Empédocles, filósofo grego que viveu em Agrigento, entre 483 a. C. e 423 a. C., escreveu estes versos.
A sua concepção do Universo baseava-se na combinação de quatro elementos essenciais: Terra; Água; Ar; Fogo.
Sobre estes elementos actuavam dois princípios motores: o amor que os agrega e harmoniza; o ódio que os desagrega e os põe em conflito provocando a desordem.

A sua concepção está muito marcada pelo pensamento originário, muito antigo, do tempo em que viveu, há mais de 2.500 anos. Mas, há na filosofia verdades que são eternas devido ao modo como radicam no conhecimento profundo da natureza humana.
Ora, se é verdade que o homem consegue fazer mudar a natureza das coisas a uma velocidade por vezes vertiginosa, tem uma grande dificuldade em mudar a sua própria natureza. Por vezes, temos a impressão de que, à nossa volta, tudo está constantemente em mudança, menos a nossa alma. 
Repare-se como, hoje, século XXI, em que tanto conhecemos acerca do Universo em que estamos inscritos, existem ainda tantos homens que persistem em desconhecer a verdadeira natureza da Lei. Ou seja, no que respeita à concepção da Lei, ainda há hoje quem tenha dela um conceito muito imperfeito se comparado com o conceito que Empédocles expressou nos belos versos transcritos no começo deste texto.
E, o pior de tudo: alguns desses homens arvoram-se em decisores e julgadores dos direitos dos outros homens.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

RETRATO ESCRITO

É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução. 
(...) a defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. 
O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que "Os Lusíadas" são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE. Conhece-se (...) a inventona das escutas em Belém; (...) a confusa alcavala com o BPN, com a qual auferiu uns milhares de euros; (...) contrariou uma tradição, por ódio e rancor,  e não condecorou José Sócrates quando este saíu de primeiro-ministro. É uma criatura sem amigos; dispõe, apenas, de instantes de amizade interesseira, Nada mais. 
(...) Parece julgar-se a rainha da Inglaterra, considerando o papel superior que a si mesmo se atribui.(...)

[Frases extraídas  de um texto de Baptista-Bastos, publicado no Diário de Notícias de 1 de Maio de 2013, página 9]

Pois é! Mas foi este o homem que o povo escolheu para ser Presidente de todos os portugueses. 
A democracia tem destas coisas ... Mas também tem as suas virtudes: Também permite que possamos escrever, ler e dizer estas coisas sem sermos levados de nossas casas, por esbirros que nos batam à porta altas horas da madrugada, como acontecia em tempos de ditadura.        

segunda-feira, 29 de abril de 2013

ENTÃO, COMO É QUE É?



"Ninguém me encomendou o sermão, mas precisava de desabafar publicamente. Não posso mais com tanta lição de economia, tanta megalomania, tão curta visão do que fomos, podemos e devemos ser ainda, e tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores."

Miguel Torga – 1993

Lê-se e fica-se perplexo. Porque, das duas, uma: ou andamos sempre em círculo, tipo “pescadinha de rabo na boca”; ou estamos a andar para trás e tão distraídos que nem damos por isso?
Caramba! Ainda se fosse uma estratégia de dar três passos à frente para depois recuarmos dois, ainda ficávamos com um de avanço…
Ou será que tudo estava já combinado e nós nem demos por isso? O texto que segue deixou-me a pensar...

"Pensaram sempre em atacar salários, pensões, reformas, rendimentos individuais e das famílias, serviços públicos para os mais necessitados e nunca em rendas estatais, contratos leoninos, interesses da banca, abusos e cartéis das grandes empresas. Pode-se dizer que fizeram uma escolha entre duas opções, mas a verdade é que nunca houve opção: vieram para fazer o que fizeram, vieram para fazer o que estão a fazer."

José Pacheco Pereira

Ah! Pacheco! Que grande radical e extremista que tu me saíste! Já nem consegues reconhecer a grande abnegação, o enorme espírito de sacrifício dos que tudo fazem para bem do Povo e para salvação da Pátria?

segunda-feira, 22 de abril de 2013

TERROR É TERROR

Martin Richard tinha oito anos. É uma das três vítimas mortais dos atentados de Boston. A mãe ficou ferida na cabeça, a irmã perdeu uma perna. Estão as duas em estado muito grave, aliás como vários dos 176 feridos causados pela dupla explosão de segunda-feira (15 de Abril) na zona da meta da Maratona de Boston. Até agora não se conhece o autor ou autores da carnificina. Mas através do pequeno Richard percebe-se o crime que o ataque, qualquer que seja a motivação, representa. A América está revoltada e o Presidente Obama falou de "ato terrorista, cobarde e hediondo", garantindo que a justiça far-se-á sentir.
Foi um ato de terror. E não apenas contra Martin, a sua família ou a América. A Maratona de Boston atrai milhares de pessoas, de dezenas de países. E tem forte cobertura mediática. Quem matou, usando panelas carregadas de explosivos, e pregos, queria assustar o mundo.

(Editorial do DN, 4ª-feira, 17 de Abril de 2013, p. 8)

Quando chegava a casa ... Liz Norden recebeu um telefonema. Era de um dos filhos, Paul, 31 anos. Tinha sido ferido e ia a caminho do hospital. Não sabia do irmão que estava com ele momentos antes da explosão.
O irmão, J.P. 33 anos, tinha sido socorrido quase ao mesmo tempo e fora levado para outro hospital da cidade ... Liz descobriu que os filhos tinham tido a mesma pouca sorte: uma perna amputada.

(Notícia do DN, 4ª-feira, 17 de Abril de 2013, p. 7)

Não me peçam que ignore o que se passa para além da zona de conforto em que se desenvolve a minha vidinha. 
Não me peçam que ignore aquilo que de trágico acontece, ainda que aconteça muito longe do lugar onde me situo.
Não me peçam que me encolha na concha do meu bem-estar e na carapaça da minha indiferença. 
Sempre que alguém morre ou sofre na carne as absurdas consequências de actos tresloucados, eu devo sentir-me agredido também. 
Sempre que alguém se arma em carrasco, em nome de absurdas razões, eu devo sentir-me vítima também.   

segunda-feira, 15 de abril de 2013

COMO VAI SER?





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Volto a esta imagem, representação intensamente expressionista do terror, da inquietação e do medo, porque começo a sentir que ela se aproxima cada vez mais do momento que, nós portugueses, estamos a viver.

A quem devemos acusar? Quem tem de prestar contas pelo mal que nos levou à beira do desespero?
Quem ganhou, e quanto, com a toda a desgraça que nos atinge?
Como fazê-los pagar por todo o mal que fizerem?

E as crianças? E os que, tendo já tendo tão pouco, estão a ficar sem nada? E os pobres de espírito que nem se aperceberam do que lhes estava a acontecer?

Malditos sejam os gananciosos e os que, sem escrúpulos, os ajudaram a semear tanta desgraça.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

UMA PÁSCOA DE RESSURREIÇÃO?

A Igreja, tal como a conhecemos hoje, é o produto de uma evolução que começou há mais de dois mil anos.
Na fase inicial, nas suas origens, começou por ser uma seita dissidente do judaísmo, gerada a partir da pregação de Cristo, assimilada e disseminada pelos seus fiéis companheiros e seguidores: os apóstolos.
Nascida com uma vocação ecuménica, ou seja, universal, tendo como destinatários todos os povos, todas as regiões e todas as culturas, rompeu desde logo com o conceito de povo eleito, princípio estruturante do judaísmo e lançou-se na doutrinação, começando a expandir-se pelas terras em volta do Mediterrâneo.
Esta fase apostólica foi a base da Igreja Militante, a dos mártires e santos que lançaram os alicerces e as paredes mestras da nova igreja.
Mas, os poderosos que inicialmente perseguiram e reprimiram os cristãos, acabaram por perceber que o cristianismo não se extinguia pela brutalidade, pois que, quanto mais o perseguiam, mais ele se afirmava. Numa civilização que se afundava na decadência dos costumes, na brutalidade e na corrupção desenfreada dos comportamentos, o martírio era a prova maior da autenticidade da fé e da crença pregada pelos cristãos.
Como em todos os tempos e situações, os prepotentes e poderosos, acabaram por compreender que, não os podendo eliminar nem submeter, se deviam juntar aos cristãos para melhor poderem controlar a influência de que estes dispunham junto das populações.
Começou assim, lentamente, um processo de grande transformação em que, à Igreja Militante, se foi sucedendo uma outra forma de institucionalizar o cristianismo que acabou por resultar na construção da Igreja Triunfante, ou seja, uma igreja que tinha do seu lado e integrava os poderes políticos que dominavam as sociedades humanas. Os reis e todos os tipos de poderosos cuidaram de sacralizar o poder que detinham, tornando-se, primeiro os protectores e depois os principais controladores da própria Igreja.
Da degradação doutrinal e comportamental que daí resultou, começaram a surgir as contestações que levaram às heresias, aos cismas e às tentativas de restauração da pureza primitiva da fé cristã de que foram exemplos S. Domingos e S. Francisco de Assis, em plena Idade Média.
Na passagem do  período medieval à Idade Moderna, a situação tinha-se agravado de tal modo que culminou numa  divisão do cristianismo que, começando na Europa, iria ter repercussões por todo o mundo.
Nesta nova fase, os cristãos envolveram-se em guerras e em perseguições inquisitoriais para afirmarem dogmatismos que já nada tinham a ver com a fé, o despojamento e a caridade, princípios básicos do cristianismo, para dar lugar à intrnsigência, ao proselitismo e ao recurso à violência.
De ambos os lados, os dois blocos foram cavando a irremediável divisão do cristianismo. Uns baseados nas preocupações de Lutero, Calvino e outros reformadores, outros respondendo com a intransigência e o repúdio imposto pelo centralismo dogmático de Roma. 
Gerou-se assim, uma nova fase: a da Igreja Dividida pela Reforma e pela Contra-Reforma .
Ora, como a divisão nunca traz a consolidação porque enfraquece, assim começou uma fase de declínio que se tem prolongado até aos dias de hoje.
Parece que a consciência deste acentuado declínio começa a ser dominante nos mais altos representantes das igrejas. Assim sendo, Francisco (1), o nome escolhido pelo novo Papa, pretende significar, simbolicamente, o desejo de restauração de uma fé que se terá afastado dos seus princípios genéticos, para se cristalizar em atitudes, compromissos e comportamentos que pouco terão, de facto, a ver com uma verdadeira doutrina de Cristo. 
Esperemos que esta Páscoa que agora se celebrou, possa voltar a significar aquilo que foi na sua origem:  
A celebração de uma Ressurreição.

(1) Segundo a tradição, Cristo teria aparecido a S. Francisco e ter-lhe-ia feito o seguinte apelo:
Francisco, a minha casa está em ruínas; repara-a para mim.
São Francisco de  Assis, assim chamado por ser natural da cidade italiana de Assis, onde nasceu em 1182. Filho de um rico comerciante, ainda muito jovem abandonou o bem-estar da família em que nascera para seguir o exemplo de Cristo, dedicando-se à oração, à pregação da humildade, da caridade e do apoio aos necessitados. Foi o fundador da Ordem dos Franciscanos. É considerado o santo da paz, dos pobres, dos animais e da natureza. Morreu em 1226 e foi canonizado dois anos depois da sua morte.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

UM ENORME DESABAFO ...

Confesso que, um pouco por acaso, tive recentemente a sorte de poder assistir a uma sessão de cinema em que era passado um filme que, a mim que não sou de grandes conhecimentos  cinematográficos  e que só muito raramente me disponho a ir a uma sala de cinema, nada me dizia de especial. 
Correndo o risco de expor a minha grande ignorância, dou as indicações que me foi possível recolher acerca do filme: Título Efeitos Secundários; Realizador Steven Soderberg; Actores Jude Law, Rooney Mara e Catherine Zeta-Jones.
Resumidamente, a história envolve uma jovem mulher que começou a tratar-se com um psiquiatra, após uma tentativa falhada de suicídio. Viciada em antidepressivos e ansiolíticos, receitados anteriormente em grandes doses,  por uma médica e que, não só não lhe trouxeram o alívio esperado, como a tornaram dependente, foram minando a sua estabilidade emocional e agravando o seu equilíbrio mental.
O filme causou-me forte impressão. Primeiro pela excelente qualidade em todos os seus aspectos: narração; realização; enredo; representações. Mas, sobretudo impressionou-me porque me pôs a pensar em realidades que já antes tinha observado e que, por associação espontânea, se avivaram com a assistência a este filme. 
De repente a história a que assistia fez-me voltar a pensar no efeito de certas práticas médicas e nas soluções farmacológicas a que certos médicos deitam mão. Esses pensamentos já antes me tinham preocupado.
Pensei na maneira como, a propósito de quase tudo, se receitam fármacos para serem usados durante períodos que parecem exagerados, para atacar situações que, talvez erradamente, a mim me parecem banais ou sem gravidade para que sejam aplicados  tão demoradamente ou em doses grandes demais.
Ora, o filme descreve precisamente uma destas situações, retratando um caso clínico em que o uso imoderado de medicamentos, agrava a sintomatologia da doente e gera uma galopante dependências dos fármacos que foram prescritos pela médica anterior.
Mais de uma vez fiquei perplexo  com situações similares de que tive conhecimento na vida real. O filme avivou-me a consciência desta situação e fundamentou algumas suspeições que eu já tinha formulado e que me levam a colocar as seguintes questões:
- Que raio de sociedade é esta em que as pessoas são levadas a medicar-se para além dos prudentes limites do seu bem-estar?
- Que raio de Medicina é esta que trata de garantir uma aparente felicidade, colocando em risco a integridade daqueles que devia curar?
- Que raio de médicos são estes que parecem receitar mais em função do consumo de medicamentos do que em função da saúde dos doentes? 

Confesso que, perante a denúncia feita por este excelente filme, me lembrei de alguns autênticos vivos-mortos em que certas práticas médicas transformam alguns pacientes que são levados a recorrer a certos fármacos para dormir e a outros para os fazerem acordar. 

Que raio de indústria farmacêutica é esta que parece mais interessada em "vender uma falsa felicidade" do que encontrar cura para a enfermidade?
O problema está sempre em que quando alguns ganham milhões, muitos terão de ser sacrificados.
Já agora, uma pergunta um tanto ingénua: Porque terão os médicos de receitar tantos medicamentos a doentes que apenas se queixam de se sentirem infelizes? Não seria muito melhor ajudar os pacientes a tomarem consciência das causas da sua infelicidade e da maneira de melhor saberem enfrentar os seus problemas?
Às vezes  tenho a convicção de que os médicos deixaram de saber ouvir e entender os doentes que os procuram para que os ajudem a enfrentar os seus problemas. E, em certos casos, tenho mesmo a impressão que  já não prestam cuidados de saúde mas que apenas  recorrem a tecnologias e produtos químicos e que,  só por equívoco se continua a chamar a isso Medicina. 
Tenho esta estranha convicção: Em certos casos, as pessoas que procuram um médico, estão mais necessitadas de ouvir palavras amigas de aconselhamento, compreensão e conforto do que de tomar fármacos. Infelizmente, parece haver cada vez menos médicos disponíveis para práticas semelhantes. 
Mas, enquanto forem admitidos  aos cursos de Medicina os candidatos que têm notas mais altas, sem se atender também, como critério de selecção, aos que têm mais vocação...

segunda-feira, 25 de março de 2013

VONTADE DE TER E DESEJO DE SER

Na sua atitude, cada um de nós pode ser considerado pela atitude essencial que mantém perante a vida: Uns orientam as suas existências por uma busca constante do prazer; outros centram-se mais no desejo, ou seja, na aspiração de ser ou de atingir um modo aperfeiçoado de ser. 
Nas antiga Sabedoria greco-romana, os primeiros eram designados por hedonistas; os segundos  eram referidos como estóicos.
Enquanto na atitude hedonista existe uma constante busca de satisfação através do prazer, no estoicismo há uma construção por centração no desejo que se projecta para objectivos que estão para além da imediata satisfação.
No hedonista as metas são de curto prazo, pois mal um impulso, no qual se congregaram as forças, a energia e a vontade, encontra satisfação, logo começa a surgir a busca de um novo momento ou forma de prazer. Assim, o prazer é uma sequência incessante de factos, sentimentos ou sensações.
No estoicismo a atitude centra-se em objectivos que são fixados em função, não de um clímax, mas de um estado ou atitude permanente de quem vai fazendo um caminho sem excesso de pressa, sem ansiedade e sem paixão. Não se trata de uma busca mas da aceitação de uma opção de vida que, se necessário passa pela própria renúncia ao prazer em busca da quietação, de uma forma de estar e de ser, orientada por princípios estáveis, permanentes e universais. 
Em contrapartida, a busca do prazer é sempre uma afirmação essencialmente individual, mesmo quando pressupõe a interacção com outros. Enquanto o hedonista opta por alcançar o ter, a opção do estóico é a da assunção do dever como via para atingir a serenidade, a segurança e a consciência de um bem maior do que a transitoriedade em que consiste a aquisição do prazer. 
Enquanto o prazer solicita a constante repetição, o desejo de aperfeiçoamento  consiste numa constante atitude de auto-criação.
Tal como os indivíduos, também as civilizações, as sociedades e as nações passam por fases mais hedonistas ou mais estóicas. Ninguém terá dúvidas de considerar que estamos a atravessar tempos do mais exacerbado hedonismo. Muitos consideram que tal corresponde aos períodos críticos que prenunciam à fase cíclica da sua decadência.

segunda-feira, 18 de março de 2013

DESILUSÃO?




Há verdades que, nem são simpáticas, nem fáceis de entender. Mas, porque são importantes, necessitam de ser ditas e reditas até que haja cada vez mais gente capaz de as entenderem e de as tomarem em consideração. Uma dessas verdades ajudará a compreender porque é que tantos se dizem, actualmente, desiludidos da democracia.
Ora bem: vejamos de que gente se trata começando por analisar o entendimento que esses desiludidos têm do que seja democracia. Será que alguma vez a entenderam como o sistema social e político que se baseia em princípios como a Liberdade de opção e de expressão, a Igualdade perante a lei e de acesso a todos os estatutos e oportunidades de promoção e a Solidariedade que deve unir todos, quando se trata de garantir os direitos de cada um?
Ou será que muitos desses que hoje proclamam a sua desilusão com a democracia a entenderam apenas como a oportunidade que lhes foi dada de acederem a situações de vantagem, de fortuna e de bem-estar com o mínimo de esforço e com o máximo de proveito?
Se a nossa memória não for falseadora ou curta, qualquer um de nós pode facilmente lembrar tantos que, agitando bandeiras e proclamando fingidas convicções, tentaram obter o máximo de vantagens, proclamando direitos e desprezando deveres.
De facto, a democracia como sistema político, é de todos o mais perfeito a nível dos princípios e o mais frágil e falível no que respeita às acções de defesa que desenvolve e às acções de ataque que permite. 
O mal da democracia é ser por demais permissiva e pecar por tão pouco vigiar, julgar e castigar os que dela se servem, gerando com os seus abusos as razões e condições que colocam em risco a própria democracia. 
 Claro que, na actual conjuntura, muitos encontrarão razões para grande frustração. Afinal apostaram muito nesta gente que, atingido o poder, deitou fora declarações e promessas e que, com a sua enorme incompetência e cega obstinação, estabeleceu a desgraça generalizada a que estamos a assistir. 
Porém, bem vistas as coisas, não se tratará de estarem desiludidos com a democracia. Na verdade, estarão mas é carentes de oportunidades desejadas e não concretizadas. Estarão mesmo numa situação de quase ressaca por se verem destituídos das benesses e mordomias a que estão habituados.
Descontentes estão, com plena razão, os que se encontram desempregados, os que se vêem privados de parte dos seus rendimentos, os condenados a salários, pensões e reformas de miséria. Mas estes não estão desiludidos da democracia. Estão irados e revoltados por não serem respeitados os princípios e deveres que devem orientar os que foram democraticamente eleitos pelo povo para que governassem em defesa dos seus direitos e com salvaguarda dos seus interesses e necessidades fundamentais.

segunda-feira, 11 de março de 2013

domingo, 3 de março de 2013

                                     Cravos no Terreiro do Paço, em Lisboa
 LISBOA: MANIFESTAÇÃO DE 2 DE MARÇO


Antes (com O GRITO) referi o desespero individual levado ao extremo. Hoje poupo nas palavras porque, mais do que elas, vale a imagem que ilustra o desespero colectivo à beira do limite.

Deixo-a aqui para comentar que a eterna estupidez da ganância, não lhe permite entender que, para lá de certos limites, a força do número, pode ser superior à prepotência do poder instituído. 




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O GRITO

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Este quadro, uma das quatro versões que  o pintor norueguês, Edvard Munch criou entre 1893 e 1895, aparece agora referida pela imprensa por estar exposta durante algum meses no Metropolitan Museum of Modern Art, de Nova Iorque. 
Sempre esta pintura foi uma das obras que mais me impressionou, sem que me tivesse, em qualquer momento, preocupado em inquirir-me sobre as razões do impacto que,  desde o primeiro momento em que me foi dada conhecê-lo, em mim provocou este quadro. Aliás, penso que, tratando-se de arte, nunca me apetece entrar em grandes explicações. A arte deve falar mais à emoção do que à razão e isso me basta. 
Agora que penso nisso, aqui estou perante um quadro que me apresenta uma imagem tosca, quase um desenho de criança, pouco focado, muito distorcido. Uma amalgama de cores, linhas, formas e tons de uma  de uma imperfeição distorcida e quase brutal de figuras humanas diluídas num cenário onírico e surreal.  Entendo a opção estética do pintor enquadrada num expressionismo extremo do sentimento do mais atormentado desespero.
Mas, nada disto explica o forte impacto que, aqui e agora, esta obra me volta a provocar e de modo muito mais intenso e sentido do que antes. E, de repente, ocorre-me apenas o sentimento que só consigo expressar parafraseando de certo modo Camões: 
Esta é a situação em que, neste momento, pressinto e vejo, a gente, muita da gente, que vive nesta desditosa terra minha amada. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ALGUMAS REFLEXÕES...

São números conhecidos porque muito publicados que, enquanto cerca de 70% dos suecos confiam na capacidade e eficiência do seu governo e dos seus deputados, em Portugal apenas 22% afirmam confiar naqueles que foram eleitos para gerirem os interesses públicos ao mais alto nível da governação. 
Não há como iludir a questão: Em Portugal, os políticos, de uma forma geral, são entendidos como pessoas que se candidatam aos cargos da administração pública, não com a intenção de servir mas com o objectivo de aproveitarem o exercício dos mesmos para se servirem do modo que for mais vantajoso e conveniente para o seu próprio interesse. 
Aqui temos reflectida uma questão que costuma ser apreciada com alguma leviandade mas que que exige ser considerada com maior ponderação.
A má qualidade dos nossos políticos reflecte afinal a fraca qualidade de cidadania que temos enquanto povo. Porque, se são os piores que conseguem a eleição, quem os elege somos nós que não usamos os critérios mais adequados para fazermos uma boa escolha. Mesmo que pensemos que não há muito por onde escolher, sempre podemos optar pela abstenção, forma civicamente válida de demonstrar a nossa rejeição pelos candidatos que  são apresentados á nossa escolha pela votação.
Por outro lado, consideremos a questão de outro ângulo: Porque será que os políticos mais preparados e melhor intencionados para bem servirem a coisa pública, se estão a afastar do exercício da política? Não será porque tendencialmente são escolhidos os políticos de menos qualidade? Não estará tudo relacinado com a impreparação política e com o baixo nível cultural do nosso povo?
E que dizer dos partidos? Que raio de associações são estas que mais parecem agências para angariar cargos e promover carreiras?
Para onde caminhamos nesta marcha sem destino, sem projectos e sem princípios orientadores do nosso destino colectivo?

São demasiadas questões , estas que se colocam quando pensamos no lamentável panorama político em que vivemos. Mas são perguntas necessárias. São as que podem e devem ser feitas antes que venham por aí os tais "salvadores da pátria" que tornarão impossível que tais questões sejam colocadas. 
Ou será que actualmente já nem é preciso recorrer aos tais "salvadores" porque nos sabem tão desistentes e tão acomodados que nem precisam de se preocupar com questões que consideram de somenos importância?
Em que consiste de facto hoje o "jogo político"?
Que raio de sistema é este que parece ser feito para garantir o interesse de muito poucos através do esmagamento de todos os outros?
Será que já nem estamos interessados em exercer o nosso direito à indignação?


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

UM ESCLARECIMENTO

Desde há muito que tomei a opção de reservar apenas para mim os comentários que me vão enviando. Pouco me importam os que vociferam que se trata, segundo uns, de acto terrível de censura, segundo outros de uma grande cobardia.
Na verdade não foi por uma, nem por outra das razões acusadas que tomei a minha decisão. Trata-se para mim de uma razão que se situa a um outro nível, talvez mais comezinho, mas a que dou mais importância. Entendo eu que, quando tomamos a responsabilidade de publicitar mensagens, nos tornamos cúmplices dos conteúdos que elas emitem. E, francamente, quando um comentário alarve, boçal ou calunioso, implica o risco de atingir a dignidade de alguém, quando tem como objectivo lançar suspeição ou caluniar, eu tenho o dever de me impedir de servir de veículo a tais intenções. 
Esclareçamos bem uma coisa: na maioria dos casos, as mensagens não são deste tipo; bem pelo contrário, costumam ser apenas apreciações, correcções ou contributos que sublinham ou complementam aquilo que escrevi. Mas, no meio de todas estas, basta o veneno de uma única barbaridade para desfazer todo o benefício que estas formas de comunicação tão livres e que tanto democratizam a troca de opiniões, podem propiciar.
Claro que isto implica que, por vezes, tenha de omitir mensagens que bem gostaria de divulgar. Mas, como entendo que os que me comentam já perceberam que é apenas comigo que estão a comunicar, as mensagens tornaram-se cada vez mais intimistas e até mais autênticas, por se saber, à partida que não serão publicadas. Em contrapartida, e com grande vantagem, as boçalidades e insultos quase desapareceram o que prova a sua intenção de usar o anonimato como forma de atingir. Eram agressões exibicionistas que pouco tinham a ver com comunicação. As que insistem, esbarram na barreira da minha intransigência em pactuar com "bacoradas". Se aqui chegam, aqui acabam, pois são de imediato apagadas. 
Já me têm escrito que, com isto, terei menos leitores. Não é bem como  pensam. Mas, mesmo que fosse, isso pouco me importava. Escrevo primordialmente pelo prazer que escrever me proporciona.  Afinal, escrever estas pequenas e despretensiosas crónicas, é apenas uma forma disciplinada de pensar.  E, já agora, porque não partilhá-las com os que estiverem dispostos a usar um pouco do seu tempo com a sua leitura?
Como esclarecimento devo confessar aquilo que alguns dos meus leitores já perceberam: algumas das coisas que tenho escrito foram-me sugeridas por mensagens que me enviaram. Aproveito também para agradecer alguns apoios e incitamentos. Além disso, se alguma vez for necessário ou de grande interesse, terei todo o prazer em divulgar qualquer comunicação que me enviem com indicação de que gostariam de a ver publicada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

UMA LIÇÃO DE VIDA



Não tenho interesse e, para dizer a verdade, não me agrada muito, apurar das razões que me levam a ter determinados gostos ou a apreciar certos comportamentos. Esses exercícios de auto-análise não me levam nunca a conclusões que me tragam algum proveito ou virtude.
Vem isto a propósito do gosto que sinto no convívio com algumas, sublinho algumas, pessoas de idade mais avançada. Gosto particularmente das conversas que mantenho com um amigo que eu considero uma das mais interessantes pessoas com quem tenho o privilégio de poder conviver.
Sendo certo que, em muitas das nossas conversas, eu puxo assunto para que fale sobre a sua experiência enquanto professor, num destes dias, trouxe-me um escrito dizendo:

            - Olhe, meu amigo, aqui tem o que eu considero ser a melhor receita para fabricar um boa aula.

            Tomam-se, em partes iguais, uma boa dose de saber, outra de humildade. Juntam-se muito bem até constituírem uma massa homogénea. Tempera-se generosamente com dedicação, empenho e alegria. Autoridade q.b.
Prepotência e imposição, são condimentos que não ficam bem a este género de alimento: azedam-lhe o paladar; tornam-no pouco apetecido.
            Deixe-se a massa assim temperada em repouso activo para que levede. Depois cozinhe-se em lume médio.
            Sirva-se em banquete de não menos de 15, nem mais de 30 convivas. É indispensável que a degustação decorra em bom ambiente e em baixela adequada. 
             Acompanhe-se com o vinho suave da generosidade.
            Tem este pitéu duas notáveis características: Gosta-se tanto mais dele quanto mais vezes se prova; Produz nos que o provam uma agradável sensação de proveito e de bem-estar.

Fiquei muito desconfiado: acho que, o meu sábio amigo, dando-me uma receita de aula quis dar-me uma lição de vida.