segunda-feira, 25 de março de 2013

VONTADE DE TER E DESEJO DE SER

Na sua atitude, cada um de nós pode ser considerado pela atitude essencial que mantém perante a vida: Uns orientam as suas existências por uma busca constante do prazer; outros centram-se mais no desejo, ou seja, na aspiração de ser ou de atingir um modo aperfeiçoado de ser. 
Nas antiga Sabedoria greco-romana, os primeiros eram designados por hedonistas; os segundos  eram referidos como estóicos.
Enquanto na atitude hedonista existe uma constante busca de satisfação através do prazer, no estoicismo há uma construção por centração no desejo que se projecta para objectivos que estão para além da imediata satisfação.
No hedonista as metas são de curto prazo, pois mal um impulso, no qual se congregaram as forças, a energia e a vontade, encontra satisfação, logo começa a surgir a busca de um novo momento ou forma de prazer. Assim, o prazer é uma sequência incessante de factos, sentimentos ou sensações.
No estoicismo a atitude centra-se em objectivos que são fixados em função, não de um clímax, mas de um estado ou atitude permanente de quem vai fazendo um caminho sem excesso de pressa, sem ansiedade e sem paixão. Não se trata de uma busca mas da aceitação de uma opção de vida que, se necessário passa pela própria renúncia ao prazer em busca da quietação, de uma forma de estar e de ser, orientada por princípios estáveis, permanentes e universais. 
Em contrapartida, a busca do prazer é sempre uma afirmação essencialmente individual, mesmo quando pressupõe a interacção com outros. Enquanto o hedonista opta por alcançar o ter, a opção do estóico é a da assunção do dever como via para atingir a serenidade, a segurança e a consciência de um bem maior do que a transitoriedade em que consiste a aquisição do prazer. 
Enquanto o prazer solicita a constante repetição, o desejo de aperfeiçoamento  consiste numa constante atitude de auto-criação.
Tal como os indivíduos, também as civilizações, as sociedades e as nações passam por fases mais hedonistas ou mais estóicas. Ninguém terá dúvidas de considerar que estamos a atravessar tempos do mais exacerbado hedonismo. Muitos consideram que tal corresponde aos períodos críticos que prenunciam à fase cíclica da sua decadência.

segunda-feira, 18 de março de 2013

DESILUSÃO?




Há verdades que, nem são simpáticas, nem fáceis de entender. Mas, porque são importantes, necessitam de ser ditas e reditas até que haja cada vez mais gente capaz de as entenderem e de as tomarem em consideração. Uma dessas verdades ajudará a compreender porque é que tantos se dizem, actualmente, desiludidos da democracia.
Ora bem: vejamos de que gente se trata começando por analisar o entendimento que esses desiludidos têm do que seja democracia. Será que alguma vez a entenderam como o sistema social e político que se baseia em princípios como a Liberdade de opção e de expressão, a Igualdade perante a lei e de acesso a todos os estatutos e oportunidades de promoção e a Solidariedade que deve unir todos, quando se trata de garantir os direitos de cada um?
Ou será que muitos desses que hoje proclamam a sua desilusão com a democracia a entenderam apenas como a oportunidade que lhes foi dada de acederem a situações de vantagem, de fortuna e de bem-estar com o mínimo de esforço e com o máximo de proveito?
Se a nossa memória não for falseadora ou curta, qualquer um de nós pode facilmente lembrar tantos que, agitando bandeiras e proclamando fingidas convicções, tentaram obter o máximo de vantagens, proclamando direitos e desprezando deveres.
De facto, a democracia como sistema político, é de todos o mais perfeito a nível dos princípios e o mais frágil e falível no que respeita às acções de defesa que desenvolve e às acções de ataque que permite. 
O mal da democracia é ser por demais permissiva e pecar por tão pouco vigiar, julgar e castigar os que dela se servem, gerando com os seus abusos as razões e condições que colocam em risco a própria democracia. 
 Claro que, na actual conjuntura, muitos encontrarão razões para grande frustração. Afinal apostaram muito nesta gente que, atingido o poder, deitou fora declarações e promessas e que, com a sua enorme incompetência e cega obstinação, estabeleceu a desgraça generalizada a que estamos a assistir. 
Porém, bem vistas as coisas, não se tratará de estarem desiludidos com a democracia. Na verdade, estarão mas é carentes de oportunidades desejadas e não concretizadas. Estarão mesmo numa situação de quase ressaca por se verem destituídos das benesses e mordomias a que estão habituados.
Descontentes estão, com plena razão, os que se encontram desempregados, os que se vêem privados de parte dos seus rendimentos, os condenados a salários, pensões e reformas de miséria. Mas estes não estão desiludidos da democracia. Estão irados e revoltados por não serem respeitados os princípios e deveres que devem orientar os que foram democraticamente eleitos pelo povo para que governassem em defesa dos seus direitos e com salvaguarda dos seus interesses e necessidades fundamentais.

segunda-feira, 11 de março de 2013

domingo, 3 de março de 2013

                                     Cravos no Terreiro do Paço, em Lisboa
 LISBOA: MANIFESTAÇÃO DE 2 DE MARÇO


Antes (com O GRITO) referi o desespero individual levado ao extremo. Hoje poupo nas palavras porque, mais do que elas, vale a imagem que ilustra o desespero colectivo à beira do limite.

Deixo-a aqui para comentar que a eterna estupidez da ganância, não lhe permite entender que, para lá de certos limites, a força do número, pode ser superior à prepotência do poder instituído. 




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O GRITO

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Este quadro, uma das quatro versões que  o pintor norueguês, Edvard Munch criou entre 1893 e 1895, aparece agora referida pela imprensa por estar exposta durante algum meses no Metropolitan Museum of Modern Art, de Nova Iorque. 
Sempre esta pintura foi uma das obras que mais me impressionou, sem que me tivesse, em qualquer momento, preocupado em inquirir-me sobre as razões do impacto que,  desde o primeiro momento em que me foi dada conhecê-lo, em mim provocou este quadro. Aliás, penso que, tratando-se de arte, nunca me apetece entrar em grandes explicações. A arte deve falar mais à emoção do que à razão e isso me basta. 
Agora que penso nisso, aqui estou perante um quadro que me apresenta uma imagem tosca, quase um desenho de criança, pouco focado, muito distorcido. Uma amalgama de cores, linhas, formas e tons de uma  de uma imperfeição distorcida e quase brutal de figuras humanas diluídas num cenário onírico e surreal.  Entendo a opção estética do pintor enquadrada num expressionismo extremo do sentimento do mais atormentado desespero.
Mas, nada disto explica o forte impacto que, aqui e agora, esta obra me volta a provocar e de modo muito mais intenso e sentido do que antes. E, de repente, ocorre-me apenas o sentimento que só consigo expressar parafraseando de certo modo Camões: 
Esta é a situação em que, neste momento, pressinto e vejo, a gente, muita da gente, que vive nesta desditosa terra minha amada. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

ALGUMAS REFLEXÕES...

São números conhecidos porque muito publicados que, enquanto cerca de 70% dos suecos confiam na capacidade e eficiência do seu governo e dos seus deputados, em Portugal apenas 22% afirmam confiar naqueles que foram eleitos para gerirem os interesses públicos ao mais alto nível da governação. 
Não há como iludir a questão: Em Portugal, os políticos, de uma forma geral, são entendidos como pessoas que se candidatam aos cargos da administração pública, não com a intenção de servir mas com o objectivo de aproveitarem o exercício dos mesmos para se servirem do modo que for mais vantajoso e conveniente para o seu próprio interesse. 
Aqui temos reflectida uma questão que costuma ser apreciada com alguma leviandade mas que que exige ser considerada com maior ponderação.
A má qualidade dos nossos políticos reflecte afinal a fraca qualidade de cidadania que temos enquanto povo. Porque, se são os piores que conseguem a eleição, quem os elege somos nós que não usamos os critérios mais adequados para fazermos uma boa escolha. Mesmo que pensemos que não há muito por onde escolher, sempre podemos optar pela abstenção, forma civicamente válida de demonstrar a nossa rejeição pelos candidatos que  são apresentados á nossa escolha pela votação.
Por outro lado, consideremos a questão de outro ângulo: Porque será que os políticos mais preparados e melhor intencionados para bem servirem a coisa pública, se estão a afastar do exercício da política? Não será porque tendencialmente são escolhidos os políticos de menos qualidade? Não estará tudo relacinado com a impreparação política e com o baixo nível cultural do nosso povo?
E que dizer dos partidos? Que raio de associações são estas que mais parecem agências para angariar cargos e promover carreiras?
Para onde caminhamos nesta marcha sem destino, sem projectos e sem princípios orientadores do nosso destino colectivo?

São demasiadas questões , estas que se colocam quando pensamos no lamentável panorama político em que vivemos. Mas são perguntas necessárias. São as que podem e devem ser feitas antes que venham por aí os tais "salvadores da pátria" que tornarão impossível que tais questões sejam colocadas. 
Ou será que actualmente já nem é preciso recorrer aos tais "salvadores" porque nos sabem tão desistentes e tão acomodados que nem precisam de se preocupar com questões que consideram de somenos importância?
Em que consiste de facto hoje o "jogo político"?
Que raio de sistema é este que parece ser feito para garantir o interesse de muito poucos através do esmagamento de todos os outros?
Será que já nem estamos interessados em exercer o nosso direito à indignação?


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

UM ESCLARECIMENTO

Desde há muito que tomei a opção de reservar apenas para mim os comentários que me vão enviando. Pouco me importam os que vociferam que se trata, segundo uns, de acto terrível de censura, segundo outros de uma grande cobardia.
Na verdade não foi por uma, nem por outra das razões acusadas que tomei a minha decisão. Trata-se para mim de uma razão que se situa a um outro nível, talvez mais comezinho, mas a que dou mais importância. Entendo eu que, quando tomamos a responsabilidade de publicitar mensagens, nos tornamos cúmplices dos conteúdos que elas emitem. E, francamente, quando um comentário alarve, boçal ou calunioso, implica o risco de atingir a dignidade de alguém, quando tem como objectivo lançar suspeição ou caluniar, eu tenho o dever de me impedir de servir de veículo a tais intenções. 
Esclareçamos bem uma coisa: na maioria dos casos, as mensagens não são deste tipo; bem pelo contrário, costumam ser apenas apreciações, correcções ou contributos que sublinham ou complementam aquilo que escrevi. Mas, no meio de todas estas, basta o veneno de uma única barbaridade para desfazer todo o benefício que estas formas de comunicação tão livres e que tanto democratizam a troca de opiniões, podem propiciar.
Claro que isto implica que, por vezes, tenha de omitir mensagens que bem gostaria de divulgar. Mas, como entendo que os que me comentam já perceberam que é apenas comigo que estão a comunicar, as mensagens tornaram-se cada vez mais intimistas e até mais autênticas, por se saber, à partida que não serão publicadas. Em contrapartida, e com grande vantagem, as boçalidades e insultos quase desapareceram o que prova a sua intenção de usar o anonimato como forma de atingir. Eram agressões exibicionistas que pouco tinham a ver com comunicação. As que insistem, esbarram na barreira da minha intransigência em pactuar com "bacoradas". Se aqui chegam, aqui acabam, pois são de imediato apagadas. 
Já me têm escrito que, com isto, terei menos leitores. Não é bem como  pensam. Mas, mesmo que fosse, isso pouco me importava. Escrevo primordialmente pelo prazer que escrever me proporciona.  Afinal, escrever estas pequenas e despretensiosas crónicas, é apenas uma forma disciplinada de pensar.  E, já agora, porque não partilhá-las com os que estiverem dispostos a usar um pouco do seu tempo com a sua leitura?
Como esclarecimento devo confessar aquilo que alguns dos meus leitores já perceberam: algumas das coisas que tenho escrito foram-me sugeridas por mensagens que me enviaram. Aproveito também para agradecer alguns apoios e incitamentos. Além disso, se alguma vez for necessário ou de grande interesse, terei todo o prazer em divulgar qualquer comunicação que me enviem com indicação de que gostariam de a ver publicada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

UMA LIÇÃO DE VIDA



Não tenho interesse e, para dizer a verdade, não me agrada muito, apurar das razões que me levam a ter determinados gostos ou a apreciar certos comportamentos. Esses exercícios de auto-análise não me levam nunca a conclusões que me tragam algum proveito ou virtude.
Vem isto a propósito do gosto que sinto no convívio com algumas, sublinho algumas, pessoas de idade mais avançada. Gosto particularmente das conversas que mantenho com um amigo que eu considero uma das mais interessantes pessoas com quem tenho o privilégio de poder conviver.
Sendo certo que, em muitas das nossas conversas, eu puxo assunto para que fale sobre a sua experiência enquanto professor, num destes dias, trouxe-me um escrito dizendo:

            - Olhe, meu amigo, aqui tem o que eu considero ser a melhor receita para fabricar um boa aula.

            Tomam-se, em partes iguais, uma boa dose de saber, outra de humildade. Juntam-se muito bem até constituírem uma massa homogénea. Tempera-se generosamente com dedicação, empenho e alegria. Autoridade q.b.
Prepotência e imposição, são condimentos que não ficam bem a este género de alimento: azedam-lhe o paladar; tornam-no pouco apetecido.
            Deixe-se a massa assim temperada em repouso activo para que levede. Depois cozinhe-se em lume médio.
            Sirva-se em banquete de não menos de 15, nem mais de 30 convivas. É indispensável que a degustação decorra em bom ambiente e em baixela adequada. 
             Acompanhe-se com o vinho suave da generosidade.
            Tem este pitéu duas notáveis características: Gosta-se tanto mais dele quanto mais vezes se prova; Produz nos que o provam uma agradável sensação de proveito e de bem-estar.

Fiquei muito desconfiado: acho que, o meu sábio amigo, dando-me uma receita de aula quis dar-me uma lição de vida.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DA RAZÃO DAS COISAS...

Para entendermos este nosso tempo que, sem sombra de dúvida, é um tempo de profundas mudanças, temos de tentar entender a raiz, ou seja, a origem dessa mudanças.
Indo ao fundo da questão, acabaremos por perceber que a mudança radical, aquela que está a gerar todas as outras, diz respeito ao sistema económico, base das estruturas sociais. 
Na verdade, a mudança que se tem vindo a concretizar, consiste basicamente na transição de uma economia centrada nos sectores produtores de bens para uma economia controlada pelo sector financeiro. 
Ora, enquanto a economia centrada na produção de bens tem de considerar como fundamental o factor humano porque, ao mesmo tempo que é gerador de bens, é fundamental para assegurar a aquisição e consumo desses mesmos bens. Do jogo equilibrado entre estes dois momentos da actividade económica, resulta para alguns o lucro e para todos o conforto e bem-estar que resulta do acesso aos bens produzidos.
Se o sistema económico ficou dominado pelo sector financeiro, haverá tendência para o desequilíbrio porque deixa de se considerar como fundamental o factor humano, porque se constitui como dominante a acumulação de riqueza recorrendo a todos os processos que melhor e mais rapidamente favoreçam essa acumulação.
Repare-se como certos pressupostos começam a predominar nos mais diversos discursos: necessidade de reduzir os salários; encolher as despesas do Estado; retirar ao Estado as funções de segurança social, reduzindo-o a um instrumento de controlo da Lei e da Ordem Pública.
Numa sociedade assim, a concentração excessiva da riqueza tenderá a acentuar os desequilíbrios, tendendo para a rotura da própria sociedade. Todos sabemos que, em extremo, essa ruptura é gerada pela revolta, força geradora de todas as revoluções.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

PARA ONDE VAMOS?

Globalmente, no ano que passou, a economia mundial cresceu 3,2 %. 
Entretanto, os grandes magnatas, nesta economia globalizada, viram as suas fortunas crescerem a um ritmo bem mais intenso.
Começando por Carlos Slim, considerado o mais rico do planeta, com uma fortuna estimada em 57 mil milhões de euros, viu o seu capital crescer mais 10,2 % no ano que agora findou. Entretanto, no seu país, o México, a economia cresceu apenas 4%.
Bill Gates que ocupa o segundo lugar, com um crescimento de 5,3%, viu a sua fortuna crescer a um ritmo que é maior que o dobro do crescimento da economia do seu país, os EUA.
O cidadão espanhol, Amâncio Ortega, dono da Zara, com a sua fortuna de muitos milhares de milhões a crescer 16,8% , situa-se num patamar de crescimento que nada tem a ver com o que se passa na sua Espanha a braços com uma grave recessão. 
Convém entendermos que, vistos como pessoas, estes magnatas não podem, nem devem ser considerados como pessoas destituídas de sensibilidade social. Têm sido amplamente noticiados os projectos e acções filantrópicas de Bill Gates e, ainda há pouco, a comunicação social divulgou que Amâncio Ortega entregou 20 milhões de euros à Cáritas de Espanha.

Mas, então que se passa? O que é que não está a correr como devia? Porquê esta anormal distribuição da riqueza?
Em última instância, parece óbvio que o capitalismo deixou de ter uma função produtiva de bens, para ter uma função de acumulação expansiva de dinheiro. Ou seja, estamos a assistir à emergência de um capitalismo especulativo.
E porque é que as coisas estão a evoluir neste sentido? 
Fundamentalmente, por uma razão: Os Estados que deviam assumir uma função reguladora de redistribuição da riqueza, a fim de evitarem desequilíbrios e rupturas, passaram a estar dominados pelo jogo especulativo dos que controlam os meios financeiros.
Só assim se compreende que a actual crise esteja a constituir uma oportunidade tão favorável para tornar mais risco os ricos e para tornar cada vez mais difícil a vida dos mais pobres. 
A situação grava-se de tal maneira que ocorre uma frase de Romain Rolland (1866-1944), escritor francês, ensaísta, pacifista, prémio Nobel da literatura em 1915:
Quando a ordem é injusta, a desordem é já um princípio de justiça.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

AUSTERIDADE?

O direito ao trabalho remunerado, a segurança social que inclua um sistema de saúde e um sistema de pensões e de reformas, bem como o acesso à educação universal e gratuita pelo menos até aos dezoito anos, são as condições fundamentais a garantir numa sociedade moderna e equilibrada para que haja alguma igualdade de oportunidades. 
Digo igualdade de oportunidades porque a igualdade real exigiria muito mais, pois não se pode garantir igualdade dando o mesmo a todos, mas dando mais àqueles que mais precisam, uma vez que, os que já têm bastante poderão não precisar de receber tanto, ou nem sequer necessitarão de qualquer ajuda. Para estes, a sociedade precisa apenas de garantir-lhes a segurança de pessoas e bens.
Em contrapartida, quando em situações de crise, se impõem sacrifícios iguais a todos, estão-se a criar condições de profunda injustiça, porque os que menos têm serão os que ficarão mais afectados pelas exigências que lhes são impostas. 
Aquilo que para uns pode ser entendido como austeridade, poderá ser para outros um autêntico austericídio.
Tirar um pouco a quem tem bastante, poderá causar algum desconforto. Mas, despojar ainda mais quem dispões de muito pouco, poderá provocar a destruição dos meios que lhe garantiriam as mínimas condições de sobrevivência. 
Ora, o que está a acontecer entre nós, começa a ser tão preocupante quanto isto: Em certas situações, já não se pode considerar que se estão a criar condições austeras de sobrevivência, porque, mais do que isso, se estão a retirar as condições para se poder sobreviver.
Portanto, já não devemos falar de austeridade mas de austericídio, ou seja, de aniquilação pelo despojamento total que anula a possibilidade da própria vida. Se houver gente a morrer, por causa de falta de emprego ou de assistência, é de austericídio que devemos falar.
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

DO SONHO E DO PESADELO

Adam Smith, é considerado o pai da economia moderna e  o mais importante teórico do liberalismo económico. Ao escrever Uma Investigação sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações tornou-se um dos pilares fundadores do capitalismo. Numa outra sua obra menos conhecida, explicitou a sua teoria sobre os sentimentos morais que devem estruturar as sociedade humanas:
"Por mais egoísta que um homem possa ser, há sempre, evidentemente alguns princípios na sua natureza que o levam a interessar-se pela condição dos outros e a fazer com que a felicidade deles lhe seja necessária, mesmo que em nada dela beneficie, excepto o prazer de a poder observar. A piedade e a compaixão, isto é, a emoção que sentimos perante a miséria do próximo, pertencem a este universo de sentimentos morais".
Coitado do Adam Smith!... Morreria de vergonha se pudesse antever como a ânsia desenfreada dos capitalistas actuais, fez deles os mais perigosos e ferozes predadores dos outros homens. 
Este capitalismo financeiro e especulativo, é comandado por homens sem rosto, sem nomes, sem sentimentos, incapazes de compaixão. 
Agem friamente conduzidos apenas pela sede insaciável de poder. E, para melhor concretizarem os seus ataques facínoras, criaram e treinaram os autênticos mastins, a que alguns insistem em chamar políticos, para que executem todos os golpes e lhes protejam as imensas fortunas acumuladas. 
Se Adam Smith renascesse teria de escrever sobre eles Uma Investigação sobre a Natureza e a Causa da Pobreza das Nações.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

QUE TEMPOS ESTES ...



Merkel, nada diz, ou diz muito pouco e o que diz é irrelevante e destituído de qualquer desígnio político, muito menos de desígnio político para a Europa (…)
Quando não se têm convicções ou ideias, o experimentalismo e a casuística superam as deficiências.

Isto escreveu Clara Ferreira Alves na página 4 da Revista do Expresso de 22 de Dezembro.


A mesma crítica aplicada ao grupo dos “bons” discípulos que a senhora parece ter por cá e que, por estes dias, vão desgovernando Portugal, pecaria por excesso. Porque, quando mais reflectimos sobre o que dizem e sobre o seu modo de agir e de decidir, mais se confirma a angustiosa convicção de que estamos entregues a um grupo de rapazolas ignorantes, mal preparados e, principalmente, completamente desligados do que são os problemas e a realidade da nossa sociedade.
Como se pode entender uma indiferença tão grande perante o sofrimento que, as desmedidas exigências que estão a impor, estão a provocar neste povo?
Como se pode persistir nesta louca cavalgada que arrasta para o abismo toda a nação?
Como se podem destruir, sem mostras de remorso ou arrependimento, estruturas do Estado que são consideradas fundamentais para a subsistência da nossa sociedade?
Por mais exagerado que tal juízo possa parecer, afirmo sem hesitação que mais parece que estes “desgovernantes” entendem a política como qualquer rapazola entende um jogo de computador: Tudo se passa como se a realidade política fosse um cenário virtual em que não existissem pessoas reais, mas apenas figurações que não sofrem, nem sentem os efeitos desastrosos das decisões dos jogadores. Que importam os erros? Volta-se a tentar, a ver se se consegue acertar. Afinal as vidas perdidas são apenas virtuais e haverá sempre a possibilidade de repetir uma jogada, tentando somar pontos. Portanto, para quê pensar nas pessoas? Elas que cuidem de se adaptar.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

UMA "VELHA" LIÇÃO SEMPRE RENOVADA

Pelo que tenho ouvido ou lido, antigamente, os homens mais velhos acumulavam uma sabedoria que ia crescendo de geração para geração.
Hoje, nem sequer existe comunicação entre as gerações. Por isso, a sabedoria nem se transmite, nem se acumula. Na verdade, nem há sabedoria para transmitir. Por mais duro que isto possa parecer, eu entendo que alguns dos mais velhos que conheço, não passam de velhos tontos que nada têm para dizer que valha a pena ouvir.
Contudo, tive o privilégio de conhecer alguns velhos que muito me ensinaram em termos do comportamento e da responsabilidade que todos devíamos sentir e assumir nas nossas relações com os outros.
Um desses meus amigos mais velhos, disparou-me um dia em que falámos de política e de políticos esta certeira pergunta:
- Ouve lá: Tu sabes qual é a diferença entre um político medíocre e um politico sério?
Vendo-me um tanto embaraçado à procura de uma resposta, disparou:
- É que o político medíocre diz e faz aquilo que o povinho quer. E o político sério diz e faz aquilo que de que o povo necessita.

Fiquei durante algum tempo a assimilar o conteúdo do que acabava de ouvir. Confesso que ainda hoje vou ao dito do meu velho amigo para não me deixar enredar nas teias que alguns habilidosos vão tecendo para nos iludirem. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

PORQUE SERÁ?

Sobre o previsível aumento da carga horária dos professores



É muito provável que, no final do ano letivo de 2012/2013, se assista a um ligeiro aumento da carga horária dos professores. De todos os professores, incluindo os docentes do ensino superior. Esse aumento vem em linha com o aumento da carga horária semanal dos trabalhadores do setor privado. Os nossos credores exigem um alinhamento dos estatutos do trabalhadores públicos com os estatutos dos trabalhadores do setor privado.


Esse alinhamento é um questão de justiça e igualdade de tratamento. Não pode haver portugueses de primeira, os que são funcionários públicos e trabalhadores de empresas públicas, e os outros. Os direitos, deveres e remunerações devem estar alinhados.



É provável que esse aumento se traduza em mais 1 ou 2 horas letivas semanais, tanto para os professores do básico e secundário como para os professores do ensino superior.

Esse alinhamento pode criar desemprego entre os professores? Não creio que crie desemprego entre os docentes dos quadros. Vai, com certeza, reduzir a contratação de novos docentes durante alguns anos. O aumento da carga horária letiva dos professores será compensada pelas saídas por aposentação antecipada.

Com a taxa de fecundidade em Portugal nos 1,3 é de esperar uma redução futura das necessidades docentes. Essa redução é estrutural e não apenas conjuntural. É um fenómeno que veio para ficar. Lança um desafio às universidades e institutos politécnicos: têm de reconverter os cursos de formação inicial de professores em cursos de formação de profissionais vocacionados para apoiar a população sénior. Isso já está em marcha em muitas escolas superiores de educação. Têm revelado uma grande capacidade para se reinventarem.
Publicado em Profblog, em 11 de Dezembro de 2012 

Uma dúvida me assalta o espírito:
- Porque andam os professores tão conformados? Não deixa de ser estranho que os professores que puseram tudo em polvorosa por causa de novas regras de avaliação, a ponto de levarem à substituição de uma ministra, aceitem agora um injustificável aumento de horário, tanto mais que os horários dos professores portugueses já são mais extensos que a média dos horários dos docentes na União Europeia.
E porque razão o líder da Frenprof, esse tão decidido combatente que, em passado recente, mostrou coragem e sanha para quebrar lanças em defesa de sua dama, anda agora tão manso e acomodado perante ataques tão desenfreados?
Se enumerarmos as principais decisões do actual ministro da Educação - extinção de áreas curriculares e dos pares de docentes em Educação Visual e Tecnológica, o aumento do número de alunos por turma, a redução salarial e o anunciado aumento da carga horária - tudo isto isto parece ser muito maior ameaça e não se vê qualquer iniciativa de contestação. 

- Se calhar, fui eu que não entendi ...


sábado, 15 de dezembro de 2012

PARA BOM ENTENDEDOR ...

COMO MELHORAR OS RESULTADOS DE APRENDIZAGEM?
Os estudos recentes mostram que não existe correlação entre mais despesa com os alunos e melhoria dos resultados escolares. Nem tão pouco entre menor número de alunos por turma e melhoria de resultados dos alunos.
Os países com melhores resultados ... têm escolas capazes de atrair bons professores. O que distingue esses países dos que têm resultados medíocres é a capacidade dos primeiros de atrair para a profissão docente os melhores estudantes.

A melhoria dos resultados nas escolas chinesas, na Coreia do Sul e em Singapura é o resultado da combinação de vários fatores: 
-  mais rigor na seleção de professores; 
-  maior envolvimento dos pais na educação dos filhos;
-  expetativas educacionais elevadas de alunos, professores e pais.

A qualidade dos professores é uma variável importante. A correlação entre a qualidade dos professores e a melhoria dos resultados dos alunos é grande.

A análise dos fatores de crescimento económico dos países mostra que há uma grande correlação entre o ensino de qualidade, capaz de formar alunos com elevados conhecimentos e competências, e o crescimento da economia.

(Publicado em Profblog, em 11 de Dezembro de 2012) 



Comentando:

Parece-me que entendi.
Contudo, gostaria que o texto tivesse definido que só há bons professores quando estes recebem formação - inicial e continuada - adequada e de boa qualidade.
Deixar tudo ao acaso das boas vocações, não me parece garantir sucesso.
Claro que eu também sei que muitos professores não aceitam esta necessidade de formação. Aliás, a consciência dessa necessidade é inversamente proporcional à sua necessidade real.